Este texto foi inicialmente escrito como um roteiro de podcast, portanto comentários e alguns erros de revisão poderão aparecer ao longo dele.
Berlim, 1961
Segundo o acordo firmado pela conferência de Potsdam, Berlim, bem como a Alemanha estavam divididos entre os quatro grandes vencedores da segunda guerra mundial. Apesar de alguns atritos entre os lados, o isolamento foi sempre negado, até que na madrugada do dia 13 de agosto, os militares do lado dominado pelos soviéticos iniciaram o cerco com arame farpado e todo o trafego fora interrompido. Nos dias seguinte, centenas de trabalhadores iniciariam a construção de um muro que dividiria o mundo em dois pelos próximos 28 anos.
Com o fim da segunda guerra, o mundo estava dividido. De um lado, capitaneado pelos Estados Unidos e seus aliados, estavam o bloco capitalista enquanto do outro, representado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, estava o bloco socialista.
A Alemanha foi considerada a principal culpada pela guerra, e acabou dividida entre os 4 principais países vitoriosos: Estados Unidos, França, Inglaterra e União Soviética. Além da divisão do país em 4 partes, os termos do acordo previam também a divisão da capital Berlim entre esses 4 países. Criou-se aí uma situação inusitada, de um bloco capitalista bem no meio da zona soviética.
Em 1948, após constantes desentendimentos entre os dois lados, Stalin institui o bloqueio de Berlim, impedindo que qualquer tipo de suprimento pudesse chegar por via terrestre ao lado ocidental. A ideia dos soviéticos era que a falta de suprimentos acabasse por forçar os aliados a abandonar a cidade e assim assumir o controle total. De forma surpreendente, entretanto, os aliados organizaram uma grande ponte-aérea, levando combustível, remédios e suprimentos. No espaço de um ano, mais de 200000 voos foram realizados pela Força Aérea americana e inglesa. Surpreendidos pela soviéticos acabaram por suspender o bloqueio a partir do dia 12 de maio de 1949.
Na sequência, em contrapartida a existência da república federal da Alemanha (também chamada de RFA), foi criada no mesmo ano a república democrática da Alemanha (conhecida como RDA) onde o governo local servia aos interesses soviéticos.
A partir da divisão, acentuou-se a diferença entre os dois lados. No lado ocidental, com uma economia de mercado e democracia parlamentar ocorreu um grande desenvolvimento continuo, um chamado milagre econômico que durou cerca de 20 anos e enquanto do a RFA experimentava uma estabilidade e melhoria no padrão de vida, no lado oriental eram muitos que tentavam fugir para o outro lado. Apenas em 1953 mais de 330000 alemães orientais fugiram para o outro lado.
Tanto o governo da Alemanha oriental quanto os soviéticos queriam freira essa migração, porém os boatos da construção de uma barreira entre os dois lados eram enfaticamente negados. Temiam que isso incentivasse mais pessoas a fugir para o lado oeste, mas se tornava cada vez mais difícil enfrentar o capitalismo, com suas maravilhas do livre mercado bem ali, lado a lado.
Foi assim que na madrugada de 13 de agosto de 1961, militares e milicianos do lado oriental, com apoio de soldados Soviéticos fecharam os acessos ao lado ocidental e coibir qualquer tentativa de acesso enquanto operários começavam as fundações do muro que iria dividir a cidade pelos próximos anos. Ao final de sua construção o muro possuía 45 quilômetros de extensão e 2,74 metros de altura.
Os americanos pouco puderam fazer em resposta, a não ser tentar tranquilizar a população do lado ocidental de que eles lhes garantiriam seus direitos. Foram criados alguns pontos de checagem na fronteira onde cidadãos e funcionários do governo poderiam atravessar de um lado para o outro se possuíssem a devida autorização. Obviamente que o acesso aos cidadãos do lado oriental era sistematicamente dificultado.
A situação entre os dois lados ficou tensa quando em 22 de outubro de 1961, um diplomata da missão americana foi parado e por soldados da Alemanha oriental. A atitude violou um acordo entre ambos os lados que dizia que funcionários do governo não precisavam de submeter a paradas e verificações de documentos e veio como uma tentativa de mostrar autoridade, além de testar a reação dos americanos. A resposta veio na forma de soldados armados com fuzis que escoltaram o oficial dali pra frente.
Na sequência, por ordem do general Lucius Clay, alguns tanques americanos foram deslocados para a área da fronteira. Inicialmente, não houve reação do lado soviético, no entanto, os membros forças aliadas, diplomatas ou não, deveriam ser identificados e registrados, violando mais uma vez o acordo entre as partes. Mais tanques americanos foram colocados na fronteira, afrontando mais um pouco os soviéticos.
Mas dessa vez eles não deixariam passar. Nos dias que se seguiram, 33 tanques foram deslocados para as proximidades do portão de Brandemburgo. Desses, 10 foram colocados frente a frente aos tanques americanos. Municiados, ambos os lados tinham ordens de responder em igual escala caso fossem atacados e qualquer vacilo poderia ser o início de uma guerra entre as duas superpotências.
A solução para o impasse veio somente após Kennedy e Krushov conversarem por telefone. Kennedy afirmou que os militares americanos recuariam se os soviéticos assim o fizessem. Entendendo que haviam sido de certa forma vitoriosos no embate, Krushov aceitou a proposta e assim o primeiro tanque soviético recuou 5 metros, sendo repetido por um tanque americano. Um a um, os tanques recuaram e se retiraram. Uma guerra tinha sido evitada.
O muro foi mantido e reforçado ao longo dos anos. Barreiras anti veículos, minas terrestres, cercas de arames farpados cães e torres de guarda foram utilizados para evitar que os berlinenses abrissem mão das maravilhas que a mãe Rússia os impunha. Fora declarada a chamada “ordem 101 (Schießbefehl) que permitia que os oficiais atirassem para matar caso o indivíduo insistisse em fugir para o outro lado. O número de pessoas mortas ao tentar atravessar a barreira e incerto, graças as inúmeras tentativas de coibir a divulgação dos números, mas estima-se que um número entre 80 a 190 pessoas morreram ao tentar a travessia e mais de 200 foram feridos. Apesar disso, muitas pessoas conseguiram fugir para o lado ocidental, seja através de tuneis, seja usando malas e carros com fundo falso, seja simplesmente arremessando o veículo contra a fronteira e até mesmo usando identidades falsas.
Em 1964, o engenheiro cível (Building enginee) Peter Sele fora acusado de rapto. Peter era casado com uma alemã oriental que tivera a permissão para migrar para o lado ocidental constantemente negada. Desesperado, ele encontrou uma moça, de nome Dorothea Voss, que era muito parecida fisicamente com sua esposa e fingiu demonstrar interesse por ela. Após convence-la a realizar uma viagem para o lado oriental, se apossou de seu passaporte e a abandonou em uma cafeteria. Após se encontrar com sua esposa, retornou com sucesso para o lado ocidental apresentando os documentos roubados. Enquanto isso, a verdadeira Dorothea acabou detida pela polícia por 6 semanas até que a história fosse esclarecida pela família, fazendo com que Peter passasse 15 meses na prisão pelo rapto.
O primeiro caso conhecido de morte foi o de Peter Fechter, que em 1962, aos 18 anos foi baleado ao tentar ultrapassar a fronteira. Peter era um pedreiro que tramara com um colega fazer a travessia para se reencontrar com a irmã com a qual perdera contato desde a construção do muro. A ideia era aproveitar um momento de distração e correr por entre a zona militarizada até chegar ao muro e pular. Quando ambos chegaram à segunda parede, foram vistos por guardas que atiraram. Seu amigo conseguiu concluir a travessia, mas Peter foi alvejado pelas costas e caiu agonizado. Por ainda estar em Berlim Oriental, os guardas do lado ocidental nada puderam fazer, ao mesmo tempo que os guardas do lado oriental temiam se aproximar do muro para efetuar o resgate e receberem tiros já que alguns dias antes um soldado ocidental havia atirando contra um soldado oriental em outra parte da fronteira. Peter sofreu por cerca de uma hora e só foi removido após falecer.
O último caso de morte documentado ocorreu em fevereiro de 1989, quando Chris Gueffroy e Christian Gaudian tentaram atravessar a fronteira durante a madrugada. Após pularem o primeiro muro, acidentalmente acionam um alarme fazendo com que holofotes iluminassem toda a área. Ambos correm para o último muro, mas são alvejados antes de conseguir atravessar. Gaudian e ferido e acaba preso enquanto Gueffroy morre na hora.
A União Soviética e seu sistema socialista já demonstrava certo desgaste econômico desde meados dos anos 70, e não seria possível manter tão rígido controle por tanto tempo. Quando a Hungria abriu suas fronteiras com a Áustria, centenas de alemães perceberam a oportunidade de fugir. Pouco tempo depois a Tchecoslováquia fez o mesmo e diante das fugas em massa, o governo da RDA desistiu de tentar conter a todos. Mas, ainda assim, em Berlim o muro continuava apesar dos protestos. Milhares de pessoas iam as ruas exigir a abertura das fronteiras ate, que em novembro de 1989, por uma falha de comunicação, o governo oriental estudava apenas reduzir os empecilhos para a travessia do leste para o oeste, milhares de pessoas seguiram para o muro. Quanto mais a notícia de espalhava, mais pessoas chegavam. Diante da multidão, e sem instruções do que fazer, os guardas da fronteira oriental acabaram não intercedendo. Caia ali o muro de Berlim. Pessoas do lado ocidental seguiram para recepcionar seus compatriotas, desconhecidos se abraçavam como velhos amigos, boates distribuíam cerveja comemorando o grande acontecimento. Depois de 28 anos, em 9 de novembro de 1989, Berlim voltaria a ser uma só. Nos dias que se sucederam, pessoas com picaretas, martelos ou qualquer outro tipo de ferramenta tratavam de pôr o muro abaixo. Meses depois, em 1990, a Alemanha era finalmente reunificada. A sequência dos acontecimentos resultaria no desmantelamento da união soviética com a abertura econômica no leste europeu e o fim da guerra fria
A construção do muro marcou o início de uma era onde o mundo esteve diversas vezes próximo de uma catástrofe nuclear. Ele foi o símbolo da intolerância ideológica, do abuso estatal e da tentativa de esconder a falência do sistema que suprime a liberdade individual. Incrivelmente, assim como sua construção marcou o início da guerra fria, a sua queda representa também a queda dessa mesma guerra. O mundo deixaria de ser dividido entre Estados Unidos e União Soviética e passaria a ter novos players. Para o bem ou para o mal.