O dia que a cobra fumou

Este texto foi inicialmente escrito como um roteiro de podcast, portanto comentários e alguns erros de revisão poderão aparecer ao longo dele.

No dia 16 de julho de 1944 o primeiro contingente de mais de 25000 soldados brasileiros desembarca Europa para combater na segunda guerra. Muitos voltaram para contar a história mas 454 ficaram para escrevê-la;

1939

Tem início a segunda Guerra mundial. O Brasil, apesar de um leve alinhamento com o regime fascista, mas com interesses econômicos com os dois lados, declara-se neutro. Entretanto essa neutralidade não iria durar até o fim da guerra.

Durante o desenrolar do conflito, o Brasil, por sua posição geográfica favorável se mostrava um excelente parceiro para ambos os lados. Ao mesmo tempo que fornecíamos matéria prima para a Inglaterra e Estados Unidos, comprávamos maquinas e equipamentos industriais e militares do alemães.

Com o avanço da guerra, a marinha inglesa, baseada na Lei de Represália, passou a interceptar as embarcações brasileiras que importavam equipamentos militares e dificultavam ao máximo a sua liberação, exigindo provas de que aqueles equipamentos haviam sido encomendados e pagos antes do conflito de forma a evitar o envio de

recursos financeiros para a Alemanha. Dentre esses navios podemos citar o Siqueira Campos, abordado em 1940 pelos ingleses apos ser carregado com canhões encomendados a uma fabrica alemã. Esse navio foi escoltado ate Gibraltar onde ficou retido junto com toda a tripulação por 2 meses ate que fosse liberado. Uma curiosidade a respeito do Siqueira Campos e que o mesmo tratava-se do navio alemão Gertrud Woermann, confiscado pelo governo brasileiro em 1917 em virtude dos afundamentos de navios nacionais durante a primeira guerra mundial.

Em dezembro de 1941 ocorre o ataque japonês a Pearl Harbor e em decorrência disso, não existe mais clima do lado americano para tolerar que o Brasil, ponto estratégico no Atlântico, mantenha algum tipo de alinhamento ideológico nazi-facista inicia-se então uma aproximação politica e econômica, e ao mesmo tratava de traçar planos de invasão caso nos mantivéssemos esse alinhamento. Dessa forma, em Janeiro de 1942, ocorre no rio de janeiro uma conferencia entre os lideres latino-americanos recomendado uma ruptura com os países do eixo, posição essa acatada por quase todo, exceto por Argentina e chile. Em decorrência desse acerto, os Embaixadores da Itália, da Alemanha e do Japão, se apressam anunciar meio que em tom de ameaça que tal decisão seria possivelmente interpretado como uma manifestação do desejo de guerra com esses países.

Dessa forma, a partir de fevereiro de 1942, sem nenhuma declaração de guerra oficial, submarinos alemães e italianos passaram a atacar navios costa brasileiros. Cerca de 35 navios sendo a maioria de navios marcantes, pesqueiros ou de passageiros com uma estimativa de mais de 1000 mortos civis foram afundados por submarinos alemães. Espalhou-se na época que os ataques na verdade foram orquestrados pelos americanos para afastar uma possível aliança com a Alemanha. Até hoje essa hipótese não passou de um boato sem nenhum embasamento histórico que pudesse comprová-lo.

[PAUSA]

Em agosto de 1942, o Comando de Submarinos Alemão emitiu uma ordem aos submarinos que se encontravam no Atlântico Sul para atacar qualquer navio, exceto argentinos e chilenos, que navegassem as águas brasileiras. Apesar de nossa neutralidade, já era fato a existência de bases americanas no nordeste criadas com a justificativa de proteger navios civis bem como a existência de canhões nesses mesmos navios.

Em virtude desse acirramento e da grande pressão popular por uma resposta a altura, Vargas finalmente decide por declarar guerra a alemanha e a italia, ao mesmo tempo em que conseguia com os americanos investimentos que financiaram construção de bases militares e transferência de tecnologia americana para a industria brasileira. Foi com esse apóio que sugiu a CNA – Companhia Siderurgica Nacional e a Vale do rio Doce.

Foram construidas pistas de decolagem no nordeste alem de novos aviões, veículos, armas e treinamento que ajudariam na modernização das nossas forças armadas.

Apesar disso, muitos acreditavam que uma eventual participação dos soldados brasileiros seria muito dificil de ocorrer. Dai surgiu a expressão “a cobra vai fumar”, em resposta aos que diziam, em tom jocoso, que era mais fácil uma cobra fumar um cachimbo que um militar brasileiro lutar na Europa. Alguns, acreditam que essa frase foi dita pelo próprio Hittler, mas, bem, e pouco provável que o fuhrer estivesse preocupado com a participação brasileira na guerra tendo os americanos e russos dando trabalho na europa.

[PAUSA]

Com o objetivo de formar um Corpo Expedicionário de 60 mil homens deu-se inicio ao processo de recrutamento e apesar de inúmeras manifestações da classe intelectual a favor de uma resposta aos alemães e de toda propaganda do governo, o número de voluntários foi bem pequeno. Os jovens que foram as ruas exigir a presença do Brasil na guerra achavam melhor que outros fossem em lutar seu lugar. A baixa adesão acabou fazendo com que o governo lançasse mão do alistamento compulsória entre as camadas mais pobre da população. É verdade também que em muitas cidades do interior a falta de trabalho fazia com que a única opção fosse o exercito. Outros, com medo de morrer na Europa, acabaram iludidos e alistados para lutar em outro campo, extraindo borracha na Amazônia como parte dos esforços de guerra

No fim de 1943, e formada a FEB – Força Expedicionária Brasileira – que lutaria contra os alemães na Itália. Da expectativa inicial de 60000 soldados, poucos mais de 25000 puderam ser agrupados. Em junho de 44, quase 2 anos apos declaração de guerra os primeiros 5000 homens partiam para a Europa e nos meses seguintes outros tantos seriam enviados para se juntar e eles no front europeu.

O impacto da guerra logo foi sentido nos primeiros combates, onde por falta de de preparo e ate mesmo equipamentos, o numero de baixas era considerado elevado. A maior parte dos soldados tinha pouco ou nenhum treinamento e muitos so tiveram contato com as armas que usariam somente depois de desembarcados na Itália. Só em monte castelo, 300 brasileiros morreram, sendo que pelo menos um dele por fogo amigo, confundindo com um alemão por um americano. Devido ao frio, incomum para nossos soldados, muitos improvisavam forrando o uniforme com jornal enquanto outros, com sorte conseguiam uniformes das tropas americanas. A falta de planejamento do governo brasileiro fez com que fossem confecionados uniformes muito semelhantes aos utilizados pelos alemães e que fez que em certas ocasiões, brasileiros fossem hostilizados pela população italiana achando que os mesmos se tratavam dos invasores germânicos.

Porém as tropas brasileiras pouco a pouco começaram a conquistar batalhas importantes, surpreendendo ate mesmo aos americanos, que inicialmente se mostravam incomodados

com nossa falta de organização e improviso. Locais como Montese, CAMAIORE, MONTE PRANO, Monte Castelo entre outros pouco a pouco foram conquistados pelas tropas brasileiras. Na batalha de Fornovo, os brasileiros conseguiram impor forte cerco e capturaram mais de 14000 alemães, entre soldados e oficiais, incluindo ai dois generais, além de uma abundante quantidade de munição, cavalos, canhões, e mais de 1500 veículos motorizados de todos os tipos

A coragem brasileira ganhou ate mesmo o respeito dos inimigos. Em abril de 1945, três soldados, de nome GERALDO BAETA DA CRUZ, GERALDO RODRIGUES DE SOUZA e ARLINDO LÚCIO DA SILVA, em missão de reconhecimento nas terras italianas foram surpreendidos por um companhia alemã quando ficaram sob forte fogo inimigo acabaram se separando do restante da tropa. Os inimigos eram superiores tanto em número quando em treinamento.

Entretanto, ignorando a ordem para depor armas e se entregar, os brasileiros lutaram bravamente ate que finalmente suas armas se calaram sem munição sendo mortos pelo inimigo. Reconhecendo ali coragem e bravura soldados, o comandante nazista não achou certo não dar-lhes um tratamento digno e engolido todo o orgulho, ordenou que fossem cavadas 3 covas identificadas e ali fosse uma placa avisasse que ali jaziam três herois brasileiros

No fim da guerra, seus corpos finamente puderam retornar ao Brasil.

Um fato interessante sobre a passagem brasileira pela itália, foi a relação que se criou entre os brasileiros e os italianos por onde a FEB passava. Por onde iam, os brasileiros meio que se tornavam de casa. Os brasileiros, talvez por já conhecerem a fome em sua terra natal, dividiam a população italiana o pouco que tinham. Um pouco da comida enlatada, chocolates, feijão, pêssego em calda. Até hoje, em algumas regiões da Itália, a palava ‘mingau’ é utilizada como uma gíria para algo bom, saboroso, visto que esse prato era distribuído nos acampamentos pelo militares e para muitos essa era a única refeição do dia.

Após 9 meses no front, finalmente a guerra na Europa ia chegando ao seu fim. Lutamos contra o nazismo na Itália e vencemos. Era hora de voltar para casa.

A grande ironia da participação brasileira da segunda guerra é que fomos para Europa lutar pela liberdade, contra uma ditadura que perseguiu e matou milhões de pessoas enquanto que no Brasil, persistia uma outra ditadura, liderada por vargas. Vargas temia desde antes do inicio da guerra que ficar do lado americano poderia abrir as portas para que movimentos opositores ganhassem força para exigir o fim do estado novo e a

realização de eleições diretas para presidente, o que acabou se confirmado tempos depois. Até mesmo no exercito houve resistência já que muitos oficiais não aceitavam

nem mesmo condições melhores para seus subordinados. Diz-se que durante a guerra os brasileiros estranharam o fato dos oficiais e soldados americanos comerem suas refeiçoes no mesmo ambiente. Apesar disso, um fato reconhecido pelos demais foi que a FEB foi a unica tropa em toda a Segunda Guerra que negros e brancos lutaram lado a lado. Nas tropas americanas, por exemplo, haviam divisões só de negros e outras so de brancos.

Enquanto os militarem americanos eram recebidos como heróis em suas casas, os pracinhas lutariam em mais uma guerra, dessa vez contra o esquecimento e o abandono e a ingratidão em seu próprio pais. Os pracinhas receberam a baixa do serviço militar ainda na Itália.Ao chegarem no Brasil, foram proibidos de criar associações, dar entrevistas e ate mesmo exibir suas medalhas em publico. A portaria que os destituiu dizia que deveria voltar as atividades de tempos de paz. Mas como voltar para o empregos que haviam largado pelo Brasil e que não existiam mais? quem iria lhes dar emprego? Foi assim que se retribuiu a aqueles que foram la para Europa lutar pela liberdade e pela patria.

Apenas entre as décadas de 1980 e 1990 é que se intensificou o processo de reconhecimento social dos “ex-combatentes” da 2.ª Guerra Mundial. Hoje, eles dispõem de uma pensão especial, com extensão do benefício a dependentes, além de assistência médica, hospitalar e educacional, também extensiva a dependentes. O valor desta pensão  

corresponde aos proventos de 2.º Tenente das Forças Armadas.

Dizem que a história é contada pelos vencedores. Mas mesmo entre os vencedores e possível contar várias versões da mesma historia. Há quem desmereça nosso soldados, há quem diga que ele não tiveram grande participação ou lutaram batalhas importantes. Entretanto, acima de qualquer motivação politica ou ideológica é preciso reconhecer o esforço daqueles que lá lutaram e morreram e entender que devemos a eles ate mesmo o fato de hoje temos a liberdade para critica-los.