A segunda guerra mundial no front verde – O soldado esquecido

Este texto foi inicialmente escrito como um roteiro de podcast, portanto comentários e alguns erros de revisão poderão aparecer ao longo dele.

Interior do Amazonas, setembro de 1943.

“Eram 3 horas da madrugada, quando Raimundo saiu de seu barraco para enfrentar a floresta. Carregava um rifle e um terçado para proteção. Uma poronga ilumina o caminho na mata ainda escura.

Raimundo espalha pela floresta pequenas tigelas para cada seringueira que encontra pelo caminho. Pela altura do sol, que consegue ver com dificuldade por entre a densa copa das árvores, calcula que deve ser por volta de meio dia e termina sua caminhada para comer alguma coisa, adquirida no barracão do seringal a um preço exorbitante. Faltava agora fazer o caminho de volta, recolhendo cada tigela que havia enfiado na seringueira e por onde devia cair o látex. Ao chegar em casa, já no escuro, fazia o fogo e tratava de defumar o látex formando a preciosa bola de borracha que dali a alguns dias seria usada para quitar parte de suas dívidas com o dono do seringal.

Já era tarde da noite quando terminava. Raimundo arrumava suas coisas, tomava um banho em um igarapé próximo e jantava alguma coisa. Restava-lhe apenas tentar descansar um pouco já que no dia seguinte iria repetir a mesma extenuante jornada. Assim como ele, outros milhares de nordestinos tinham rotina semelhante, iludidos com o sonho brasileiro de ganhar a vida na Amazônia.”

A partir da segunda metade de século 19, as cidades de Manaus e Belém experimentaram uma transformação e urbanização, passando de pequenos vilarejos a grandes metrópoles graças a crescente procura mundial por borracha, obtida através do processo de vulcanização do látex, como é chamado a seiva extraída da seringueira.

Apesar de várias espécies serem aptas a fornecer o látex que se transformaria em borracha, apenas a seringueira brasileira produzia borracha na quantidade e qualidade necessária fazendo com que o Brasil detivesse o monopólio mundial da produção e permitindo que essas capitais se desenvolvessem e rapidamente. Manaus, por exemplo foi a segunda cidade brasileira ter luz elétrica e a terceira ter uma rede de bondes. Outro reflexo da pujança desse período foram as construções do Mercado Adolpho Lisboa, do Teatro Amazonas e do prédio da alfândega, que fora totalmente importado da Inglaterra e trazido para cá em blocos pré-moldados. Em Belém, destaca-se a construção do Mercado Ver-o-Peso e do teatro da Paz como fruto dessa época.

Tal cenário só era possível devido à grande demanda por borracha e exclusividade brasileira. Na verdade, os métodos rudimentares e o fato de as seringueiras estarem espalhadas na floresta garantiam uma produtividade baixa e mantida apenas graças ao a esse monopólio. Esse cenário mudou a partir de 1910, quando a Malásia passou a inundar

o mercado com borracha barata e de qualidade, obtida através de sementes contrabandeadas do brasil pelo inglês Henry Wickham, a partir de 1876. O uso de técnicas modernas bem como o cultivo em larga escala permitia o aumento da produtividade, já que o seringueiro não mais precisava caminhar por quilômetros dentro da floresta ente uma arvore e outra

Diante e tamanha concorrência a borracha brasileira e tornou pouco atrativa e a exploração entrou em decadência. Quem dava as cartas agora eram os ingleses, que detinham a posse das terras malaias.

Justamente por esse controle de preço por parte dos ingleses e com uma demanda gigantesca de borracha para a fabricação de pneus, ocorreram duas tentativas entre os anos 20 e 30 encabeçadas por Henry Ford, que tentou repetir aqui a formula utilizada na Malásia. A falta de conhecimento da região e manejo das mudas, alguns conflitos com os trabalhadores, e o jeitinho brasileiro garantiram o fracasso de ambas as empreitadas.

[PAUSA]

Ocorre que em dezembro de 41, em virtude da segunda guerra mundial, a força naval japonesa ataca a Malásia e outras colônias europeias no pacífico. Além de obter um ponto estratégico próximo ao oceano indico, essa invasão também tinha o objetivo de bloquear o fornecimento de borracha para os países aliados e assim frear a fabricação de pneus para veículos e aviões, uniformes e armamentos e outros itens quer seriam usados na guerra. Calcula-se que só nos estados unidos, 98% de toda borracha utilizada provinha da Ásia de forma que a falta de acesso a matéria prima e os estoques baixos preocupavam os americanos que logo viraram seus olhares para o Brasil.

A ideia americana era convencer o Brasil a reativar os antigos seringais substituindo assim a borracha asiática pela brasileira. Estimativas da época davam conta que haviam na Amazônia mais de 300 milhões arvores de seringueira que juntas permitiram a produção de cerca de 800mil toneladas anuais, o que supriria duas vezes a necessidade da indústria na época.

O que não foi levado em consideração nessa “conta de padeiro” e que essas arvores estavam espalhadas por uma área de mais de 1 milhão e meio de km2 de densa floresta e que restavam poucos seringueiros que ainda insistiam em viver da extração do látex.

Getúlio Vargas, presidente do Brasil na época, viu aí uma oportunidade de juntar a fome com a vontade de comer. Ele poderia ocupar as extensas áreas vazias da Amazônia se utilizando dos milhares de flagelados, vitimados pela seca do início dos anos 40 que arruinaram as plantações do nordeste. Para isso, tratou de negociar acordos com os Estados Unidos, que se comprometeram a financiar essa empreitada em troca de toda borracha que o Brasil produzisse. Esses acordos foram chamados de acordos de Washington, e dentre outras coisas, garantia aos estados unidos a exclusividade de toda borracha excedente ao consumo nacional aos americanos. Nesse acordo ficou definido também o valor de 39 cents. por libra-peso de borracha entregues em Belém, além de um

prêmio de 2,5 cents, por libra-peso para toda borracha que exceder a 5.000 toneladas, até o limite de 10.000 toneladas; ultrapassando esse limite, a importância do prêmio seria elevada a 5 cents por libra-peso;

Também foram criados órgãos estatais de ambos os lados para executar as etapas de cumprimento do acordo. Do lado americano, foi criado a Rubber Development Corporation enquanto que do lado brasileiro foram criados diversos órgãos como o Departamento

Nacional de Imigração (DNI), o Serviço de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia (SEMTA), a Comissão Administrativa de Encaminhamento de Trabalhadores para a Amazônia (CAETA), a Superintendência do Abastecimento do Vale Amazônico (SAVA), o Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), o Serviço de Navegação e

Administração dos Portos do Pará (SNAPP), e, para o financiamento, foi criado

o Banco de Crédito da Borracha (BCB). Todos subordinados a Comissão de Controle dos Acordos de Washington (CCAW) que por fim estava ligada diretamente ao Ministério da Fazenda

A partir convocação dos trabalhadores teve início em 42 com aliciadores fazendo visitas nos vilarejos e cidadezinhas de todo o Nordeste, mas principalmente no estado do Ceará. Padres, professores e médicos também foram utilizados para convencer mais pessoas. Quando a propaganda não funciona, restava ainda o recurso do recrutamento compulsório e os “voluntários” eram obrigado a escolher entre ir para Europa ou para floresta na Amazônia e, embalados na massiva propaganda que mostrava um paraíso verde e, com palavras de ordem como “Mais borracha para a Vitória” ou “Terra da fortuna”, muitos escolherem a floresta. Corria também na boca a boca histórias de enriquecimento fácil, “No Amazonas, junta-se dinheiro a rodo” diziam alguns. O Mito do eldorado perdido na Amazônia acendia em alguns um fio de esperança. La era a terra da fortuna, onde a floresta e sempre verde e não existe carestia ou seca. Afinal, o que tinham eles a perder?

[Discurso Vargas]

Cada trabalhador era encaminhado para um assentamento e após uma avaliação física, assinava um contrato com o Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia-SEMTA que lhe garantia um pequeno salário durante a viagem até a Amazônia e após sua chegada, uma remuneração de 60% de todo capital que fosse obtido com a borracha.

O kit básico dos voluntários, ao assinar o contrato, consistia em:

uma calça de mescla azul

uma blusa de morim branco

Um chapéu de palha

um par de alparcatas de rabicho

uma caneca de flandres

um prato fundo

um talher

uma rede

uma carteira de cigarros Colomy

um saco de estopa no lugar da mala

Por falta de organização do governo, as vezes demoravam-se meses nos assentamentos sendo vigiado por soldados e sofrendo pela falta de remédios e pela comida ruim. Quando finalmente partiam para a Amazônia, a viagem ainda levaria mais alguns meses até chegar a Manaus. Nos navios, eram comuns motins e ainda havia o medo de serem afundados pelos submarinos alemães era constante. Pouco a pouco, o paraíso verde parecia cada vez menos com o que o artista suíço Chabloz havia pintado nos cartazes do governo.

Os que conseguiam chegar ao seringal percebiam que o inferno estava apenas começando. Para complicar ainda mais, o excesso de burocracia fazia com que os diversos órgãos criados pelo governo brasileiro entrassem em conflito e causassem grande confusão e desvios como no caso onde uma pequena cidade do interior nordestino foi inundada por um carregamento de café solicitado sabe-se lá por quem ou pelo comboio de 1500 mulas que saíram de São Paulo com destino ao acre, mas que nunca chegaram ao seu destino

Chamados pejorativamente de brabos ou arigôs, os nordestinos desde as suas chegadas já acumulavam uma dívida com o dono do seringal. Tudo, da viagem da cidade até o seringal, ferramentas a mantimentos, era cobrado, as vezes com preços de 5 a 10 vezes maiores que preço normal. Mesmo com passar do tempo, a dívida nunca diminuía obrigando o seringueiro a permanecer no seringal para quitar dívida. Casos de fuga eram tratados a bala ou tortura. Esse mecanismo que prendia o trabalhador por meio de uma dívida interminável, era chamado de sistema de avivamento. Basicamente era uma versão moderna do trabalho escravo com a conivência do governo

Além da exploração por parte do dono do seringal, existia ainda a floresta, que cobrava um preço altíssimo daqueles que ousavam enfrenta-la. Malária, hepatite, febre amarela e animais selvagens dizimavam aqueles que não estavam acostumados com um ambiente tão áspero. Estima-se, que dos quase 60 mil nordestinos alistados, mais da metade morreu, seja nos alojamentos, nos navios, mas principalmente no meio da floresta Amazônia.

Com tantos problemas, a produção da goma sempre foi abaixo da expectativa. Havia ali um conflito de interesses entre os americanos, que queriam maximizar a produção para os esforços de guerra enquanto ao seringalista, mais importante era enriquecer às custas do monopólio do mercado e da exploração do seringueiro. O avanço das pesquisas de borracha artificial e a derrota dos japoneses e a retomada das colônias inglesas na Malásia acabou por sepultar de vez a empreitada brasileira e tão rapidamente quanto chegaram, os americanos trataram de encerrar os acordos com o governo brasileiro. Navios eram abandonados pela metade nos estaleiros, tratores foram deixados no meio da floresta. Caminhões, rádios e outros bens, tudo estava sendo vendido ou doado pelos americanos aos brasileiros. A Rubber Development Corporation fechou seus escritórios em Manaus e Belém, vendendo sua participação no Banco de Crédito da Borracha para o governo brasileiro.

Viu-se aí mais uma das infinitas promessas não cumpridas pelo governo com os seringueiros. Apesar da promessa de retorno a sua terra com o fim da guerra, eles foram simplesmente abandonados a própria sorte em plena floresta. Muitos só tomaram conhecimento do fim da guerra anos depois do seu fim. Calcula-se que de todo o contingente mandado para Amazônia, apenas cerca de 6 mil homens conseguiram, a duras penas e por meios próprios retornar para sua terra. Voltaram sem a riqueza que lhe fora prometida e na maioria das vezes com a saúde comprometida. Alguns conseguiram sair do seringal, mas, com poucos recursos, foram ficando nas cidades a procura de algum tipo de ocupação enquanto outros ainda hoje vivem da extração do látex

Somente recentemente estes brasileiros passaram a receber uma pensão como reconhecimento pelo serviço prestado ao país. Passaram-se mais de 40 anos para indenizar aqueles poucos que ainda estavam vivos e que de alguma forma conseguiram comprovar sua identidade com um valor irrisória quando comparado com aquele recebido pelos que foram lutar na Itália. A expressão “soldado da borracha” não se trata de exagero já que de acordo com decreto-lei 5225 de 1o de fevereiro de 1943, esses trabalhadores teriam equiparação às pracinhas dadas a importância da produção da borracha aos esforços de guerra. A comparação, entretanto, se torna mais cruel ainda quando comparamos o número de mortos infinitamente maior. Dos 20000 brasileiros que foram para Europa morreram 454 combatentes contra quase 30000 nos confins da floresta

A presença nordestina no Norte acabou por influenciar e muito na cultura local bem como na gastronomia. Apesar do fim da guerra, muitos migraram por meios próprios até os anos 50, se integrando a população. No Amazonas, estima-se que até 75% da população tem alguma descendência